segunda-feira, 14 de maio de 2018


Dor de cotovelo

Ah, sim, o sorriso da manhã já queimava o horizonte.
E tu, enciumada da beleza dos morros, permanecias no leito, com os olhos vendados.
Aspirei, sem querer, todas as longas mentiras que inventaste sobre meus poemas de amor.
E agora, como se vomitasse em orgias, reluto em te cortejar, te abraçar os cabelos, seduzir-te ao colo.
Já não mais consigo pensar no cinto que usavas, quando vias novelas.
Porque a trama sempre te apertava ainda mais o estômago, te dava náuseas.
Às vezes era o queijo perseguindo o rato.
Ou a cenoura dando cabo do coelho.
Sempre melodramas, descoloridos e pegajosos.
Mesmo a TV permanece desligada.
Envergonhada.

Nunca mais me olhaste de frente.
Só assim, por sobre os ombros desnudos, de marfim moreno:
uma piscadela, uma pequena mostra dos teus cílios, nada mais.
Queria  alcançar a flor do teu chapéu.
Talvez beijar a nuvem sobre teus cabelos em cascatas.
Viajar para o infinito, onde amor e ódio estão numa boa, de mãos dadas.

Aqui ao lado está ainda o teu lugar.
O cinto de segurança, rasgado pela tua indiferença, solto ao vento
com quem a chuva insiste em entrar no carro.

O remorso acabou.
Morreu.
Cremado sem dó nem paixão.
Os odores do caixão, eles também morreram.
São vapores, são dores, ressentimentos que não deixaram rastros.
Teu almoço, peixe grelhado, só com espinhas, maldades e desaforos, ainda putrefaz na geladeira desligada.

Não me venhas com reticências.
Não são mais que pontinhos, negros e diminutos.

Acabei de chamar o lixeiro. Lembras?
Estavas aqui perto, onde te vi, perambulando, cheia de baldes, panelas e conchas, até colchões e sofás, e ainda, por cima, um lençol de baratas, lúcidas, rápidas, nojentas.
É teu lugar. Por opção.
Pois ignoraste meus poemas, meus versos, minha alma.
Não por vingança e sim por amor.

Pois te amei.
Mas amargar-te-ei para sempre, tirana dos meus sonhos e devaneios, veneno dos meus versos, licor maligno das minhas ilusões.
O lixeiro chegou.
Te amo.

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