quinta-feira, 17 de maio de 2018

Aventura no Pantanal

Autor: Cel Marcis Gualberto Mendonça

A Sub-Seção de Levantamento nº1/2ª DL (SL-1/ 2ª DL) concluíra a missão do Sub-PJ Goiás, deixando Jaraguá - GO no início de jul/72 e chegando a Aquidauana - MT, após 3 dias de viagem. Seria dada execução ao Sub-PJ Ponte Vermelha, em pleno Pantanal Sul, para tanto dispondo dos meses restantes daquele ano. Para a determinação do apoio suplementar dispúnhamos de telurômetros, teodolitos e demais equipamentos de topografia utilizados na época. Para os deslocamentos as viaturas Kaiser, blindagem duvidosa devido ao longo tempo de uso. Horas de voo de helicóptero empregado no projeto anterior (Rio APA) em número insuficiente. As condições de trabalho em suas piores expectativas: ciclo das secas - ago/set com muitas queimadas e intensa fumaça; ciclo das águas - temporada de chuvas previstas a partir de out/nov. Toda essa expectativa viria a se confirmar no decorrer da missão.

Ficara eu na retaguarda, concluindo a instalação da sessão em Aquidauana, incluindo visitas a oficinas de serviços, bancos, comércio local, e a devida apresentação no 9º BECmb. Enfim chegara a hora e vez da ida ao Campo. Já haviam decorridos cerca de 8 a 10 dias que as equipes tinham partido para o interior do Pantanal.

Sem mais delongas, passo à descrição daquilo que, na verdade, constitui o objeto dessa narrativa – contexto, a que titularia, com certa dificuldade de "Aventuras ou agruras de um capitão". Em cena muita curiosidade, ansiedade e pressa. Presentes ainda, erros de avaliação e conduta como se poderá perceber.

Voltando ao começo do episódio, algumas informações pertinentes.
- Cb Santos, motorista experiente, convocado da equipe de Campo para essa primeira incursão, e que já trabalhara na região no 1º semestre daquele mesmo ano na conclusão do Sub-PJ Rio Apa, sob chefia do Cap Paraguassu.
- As viaturas Kaiser, já de largo emprego nas DL, cedidas ao SGE através do então "Acordo Militar Brasil – USA". Eram de um modelo empregado na guerra da Coréia; depois de muito utilizadas, não mais conservavam suas características e acessórios de origem. Portanto seu emprego requeria cuidados especiais.
- Condições do terreno, vegetação e principalmente a hidrografia apresentavam características peculiares, muito variáveis ao longo do ano, embora a ciclos repetitivos e sem grandes novidades de um para outro ciclo.

Cb Santos ao volante conduzia com habilidade, tanto na direção quanto na narrativa. Os caminhos, desvios, a vegetação típica, as pastagens e fazendas com seus rebanhos bovinos. O que mais chamava atenção, porque bem diferentes de outras regiões que conhecia eram os animais e as aves multicoloridas, sobrevoando as inúmeras e piscosas lagoas, subindo e descendo como que em cones, com a aproximação ou afastamento da viatura.

Entre uma e outra surpresa, algumas paradas. Após uma delas, empolgado, pus-me ao volante da viatura. Como esclarecimento e para melhor entendimento do fato em questão, lembro que naquelas atividades de campo, em determinadas situações, topógrafos ou mesmo oficiais dirigissem viaturas. Não era esse o caso nem mesmo a circunstância - havia e estava presente o motorista, dentre os bons talvez o melhor! Chegamos, finalmente, ao local do inusitado episódio.

Defrontamos então com o belo e lendário rio Negro, pronto a nos pregar um grande susto, porque não logo admitir - pavor e medo!

Bastou uma só olhada à direita para perceber que o guia sinalizava para seguir em frente, acrescentando que se tratava de uma passagem a vau, onde habitualmente costumavam atravessar o rio naqueles períodos de vazantes.

Senti-me encorajado, destemido, toquei em frente!. À medida que avançávamos, as águas se apresentavam mais velozes, ultrapassando o capô e alcançando o para-brisa ao se chegar ao centro da travessia. Os vidros da porta, por precaução tinham sido erguidos e nada mais. Então, em meio ao burburinho das águas e ao tumulto que se fez ouço uma voz como se de comando fosse: "ACELERA! À ESQUERDA!" (sentido contrário ao da correnteza).

Tal qual um subordinado, cumpri a ordem, até porque não havia razões, muito menos tempo, para questionamentos. Os pneus se aferraram ao terreno, motor a funcionar. Finalmente completou-se a travessia, sem novos atropelos.

Fez-se logo uma parada para análise, avaliação e reflexão. Não tive muito trabalho nem precisei de mais tempo que um mínimo: culpa e responsabilidade minhas, atitude e iniciativa as do Cb Santos, Graças ... ao bom Deus!

Só depois nos lembramos de que o cano de descarga estava sem o extensor, a viatura estava vazia e portanto bem leve, e o motor não mais tinha a blindagem de fábrica! O milagre, na verdade, fora maior do que antes se imaginara.

Que mudar na reavaliação? Apenas passar de um só para mil "Graças a Deus!"

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