Blog: Qual o seu nome completo, posto e nome de guerra?
R: João Batista Neto, 1º Ten QAO Topo. Meu nome de guerra é Batista Neto. Ao chegar na 2ª DL, em 1961, havia um sargento com nome de guerra Neto, mecânico. E havia um outro, topógrafo, Baptista. Tive que mudar meu nome de guerra de Neto para Batista Neto. Em Porto Alegre fiquei conhecido como Batista. Na 3ª DL, retomei o nome Batista Neto.
Blog: Caso deseje, acrescente algumas informações da sua família.
R: Sou casado há 55 anos com Teresinha Batista, temos três filhos, sete netos e quatro bisnetos (por enquanto). Esposa e filhos nascidos no Paraná, cidade de Ponta Grossa, onde residi por pouco mais de 16 anos.
Blog: E o Sr, onde nasceu?
R: Nasci em Portalegre – RN. Aos treze ou quatorze anos, morando em Jundiaí-SP, enviei uma carta ao meu avô, que morava em Portalegre-RN. Muito tempo depois recebi de volta a carta, dentro de outro envelope, onde havia várias anotações feitas pelo Correio. Alguém havia corrigido Portalegre para Porto Alegre. E ainda, RN para RS. Evidente que o endereço nunca seria encontrado. Naqueles tempos havia alguns engraçadinhos no Correio, que anotavam nos envelopes da correspondência cujo destinatário não fora encontrado, textos, às vezes em forma de verso, ironizando ou mesmo satirizando a forma ou o conteúdo preenchido pelo remetente no envelope. Na agência dos Correios, em Ponta Grossa, havia uma exposição dessas cartas em um quadro na parede, cartas cujos remetentes não foram localizados.
Blog: Como o Sr entrou para o Exército?
R: Fui incorporado como recruta no 10° GAT – Fortaleza – em 20 jan 1958.
Blog: E para o Serviço Geográfico do Exército?
R: Durante o Curso de Sargentos na EsSA, fiz opção por Topografia; na época, equivalente ao CAS.
Blog: Onde foi o Curso de Topografia?
R: Nosso Curso de Topografia foi feito na antiga DSG, morro da Conceição, sob a chefia do Maj Dória. Também naquele ano (1960) se formou a segunda turma de Topografia da Aeronáutica e a primeira dos Fuzileiros Navais. Da minha turma, do Exército, formaram-se cinco, dos quais dois deram baixa (Josué Paim e Carlos Déda) e um terceiro já é falecido (Edson Villaron).
Blog: Após entrar no Geográfico, em quais unidades o Sr serviu?
R: Na 2ª DL, na 1ª DL e na 3ª DL, nesta ordem.
Blog: Quando o Sr serviu na 2ª DL e, neste período, quais foram os seus Chefes?
R: Servi de 1961 até julho de 1976. Neste tempo, chefiaram a 2ª DL: TC Alfredo dos Reis Príncipe Júnior (1959 a 1962), Cel Carlos Braga Chagas (62 a 63), Cel Paulo Moretysohn Brandi (63 a 67), TC Edmundo Capella (67 a 70), TC Carlos Eduardo De Miranda Lisboa (70 a 72), TC Percy Antônio Wolff (72 a 75) e TC Fernando Faria (75 a 78).
Blog: Quais as principais funções que o Sr exerceu na 2ª DL?
R: Cálculo; Medição; Reambulação; Restituição fotogramétrica, em aparelhos Multiplex e Kelsh; Reconhecimento e Medição.
Blog: Medição de quê?
R: Apoio de campo para cartas nas escalas de 1:50.000 e 1:100.000; de poligonal eletrônica (a telurômetro); definição de perfil altimétrico para implantação da primeira rede de tele-comunicação de longa distância por micro-ondas (antiga Telepar) – desde Curitiba, até o norte do estado (Apucarana), para leste e para oeste (Maringá e Cornélio Procópio).
Blog: E o Reconhecimento e Medição?
R: De uma rede de apoio de 1ª. ordem (trilateração), como experimento, a fim de verificar a viabilidade do processo em substituição à tradicional triangulação de 1ª. Ordem.
Blog: O Sr tem algum comentário sobre essas atividades?
R: Sim, tenho dois. Primeiro, nas campanhas técnicas de que participei, conheci o helicóptero como meio de transporte para apoio em cartografia, no ano de 1974, em Goiás. Aliás, minha ida para o campo se deu por motivo do falecimento do saudoso companheiro e amigo “portuga”, Antônio Antunes da Luz, em uma queda de helicóptero. Vale ressaltar que ele preferia sempre a reambulação por terra. Mas, naquele dia, por fatalidade, decidiu fazer um pequeno voo, em final de tarde, para adiantar o trabalho.
Era um Bell-300, helicóptero da Votec, operado à gasolina. Muito leve, qualquer vento mais forte exigia do piloto atenção redobrada. Não sei se por esse motivo, passamos a usar nos trabalhos o modelo Bell-500, a querosene, maior e menos perigoso.
No retorno, a poucos quilômetros do acampamento em Gurupi, a aeronave caiu. Provavelmente por falta de combustível, pois não houve incêndio e o pessoal que chegou ao local, logo a seguir, não viu qualquer vestígio de gasolina próximo ao aparelho.
Blog: E o segundo comentário?
R: É uma observação que reputo interessante: fomos dos primeiros no Brasil no uso do telurômetro para medição das poligonais eletrônicas. Em 1964 recebemos no campo, importados da África do Sul, dois pares de telurômetros, em Apucarana, Paraná. Simultaneamente, vieram dois ou três norte-americanos para passar as dicas de operação do equipamento.
O geodímetro, outro equipamento de medição eletrônica de distância já era conhecido do nosso pessoal. Aliás, esse aparelho foi inventado em 1948, pelo engenheiro sueco Eric Bergstrand. Já bem antigo, por sinal. Mas era usado para pequenos lances, contrastando com o telurômetro, que media distâncias de dezenas de quilômetros – chegamos a medir um lance de poligonal com 88,641 km. Lance esse medido e remedido, por mais de uma equipe, para confirmação da medida.
Blog: De quais campanhas ou serviços de campo o Sr participou na 2ª DL?
R: Pela ordem:
1961- campanha técnica em Porto União, União da Vitória, Caçador, Matos Costa, etc. Apoio para carta de 1:50.000;
1964 – 1965 - serviço de campo para carta de 1:100.000, cobrindo cerca de 80% do território paranaense, parte de Santa Catarina e parte de São Paulo, desde o norte do Paraná, descendo pelo oeste, passando pelo eixo Cascavel-Curitiba, descendo até o litoral norte de Santa Catarina, e subindo até Cananéia, litoral sul de São Paulo;
1966 – campanha em Mato Grosso (hoje Mato Grosso do Sul) – medição de 1ª. ordem (trilateração);
1967 e 1968 – à disposição da Fazenda Modelo federal em Ponta Grossa, para aferição dos limites da fazenda e outros trabalhos de agrimensura;
1974 – campanha técnica em Goiás, na Reambulação.
Blog: Alguma lembrança sobre o desenvolvimento dos serviços da primeira campanha?
R: Em 1961 a campanha foi muito difícil. Parte do trabalho foi realizada no inverno, e em região de serra. Além disso, quando estávamos em Porto União, o rio Iguaçu, como o faz costumeiramente, alagou toda a região, causando muitos prejuízos, tanto aos moradores ribeirinhos quanto ao nosso trabalho.
Tivemos problemas com os índios da região, que invadiam o acampamento durante nossa ausência, quando saíamos para trabalhar, e furtavam mantimentos, roupas, etc. Sem falar da temperatura, que insistia em permanecer abaixo de zero grau.
Em Matos Costa - SC, por exemplo, após muita chuva, houve uma grande geada. Os carros, estacionados na lama, amanheceram com os motores estourados. A temperatura havia descido abaixo de 10ºC negativos.
Blog: E sobre a campanha de 1964?
R: Para a campanha de 1964, fomos para o campo sem previsão de receber diárias. Mas foram pagas todas no início do ano seguinte. Apesar de ter sido um ano politicamente diferente, a campanha se desenvolveu dentro de certa normalidade. Creio que o espírito carteano, de devoção ao trabalho, dedicação, entusiasmo pela profissão, tenha contribuído muito para essa situação. Não havia internet e a TV era ainda um luxo, a que poucos tinham acesso.
Blog: Alguma observação sobre os serviços de campo em 1965?
R: A campanha de 1965, posso dividi-la em duas:
- foi verificado que a frequência de micro-ondas do telurômetro era superior à frequência utilizada nos transmissores de telecomunicações. Significava dizer que, se nosso sinal de telurômetro passasse sem interferência, certamente o sinal dos transmissores da Telepar também teriam trajetória limpa. Com isso, ao determinarmos uma poligonal eletrônica, de sul a norte do estado e de leste a oeste, esses mesmos vértices da poligonal poderiam ser utilizados pelas torres da Telepar. As torres ainda estão lá em nossos pontos poligonais. De Curitiba a Londrina. De Maringá (na época, não havia cidade; só máquinas e poeira) a Cornélio Procópio. Era tanta a confiança no trabalho que fazíamos, que a Telepar instalava suas torres tão logo o ponto era determinado.
- a outra metade da campanha iniciou-se a noroeste do estado, descendo pelas cidades de Ivaí, Manoel Ribas, Cândido de Abreu, Reserva, Imbituva, Irati, São Mateus, Mafra, São Bento do Sul, Jaraguá do Sul, Joinville, Guaratuba, Matinhos, Paranaguá, São José dos Pinhais, Araucária, Colombo, Ribeira, Apiaí, Iporanga, Registro, Cananéia, etc.
Blog: E a campanha de 1966, como foi?
R: A experiência feita na região de Dourados, de se fazer uma poligonal eletrônica, para determinação de pontos de primeira ordem (por trilateração), não teve o sucesso esperado. Trabalhávamos com barômetros de precisão, termômetros de um metro de comprimento, com precisão de décimos ou centésimos de grau Celsius, ângulos medidos a T3, com 32 séries, etc. Como se sabe o telurômetro tem precisão insuficiente para a 1ª. ordem. Refração, umidade, distância, temperatura, pressão atmosférica, são fatores de difícil previsão e aferição para correção dos erros das medidas de distâncias. A tentativa ficou para a história. Um custo alto de validade discutível.
Blog: Mais algum relato dessa época?
R: A Avenida Brasil em Ponta Porã separa o Brasil do Paraguai. Por diversas vezes colegas em campanha na região, se dirigiam a Pedro Juan Caballero, no outro país, compravam quinquilharias, brinquedos, etc, para presentear pessoas da família e amigos. No geral não se configurava contrabando, pois eram peças de pequeno valor. Não havia ainda posto alfandegário da Receita Federal.
Em 1967, colegas que não estavam no campo, entregaram aos sargentos Deda e Percemilho (creio que eram esses dois), pequenas quantias para compra de presentes, em Pedro Juan Caballero. Passaram os dois, o dia inteiro, antes da viagem de volta para Ponta Grossa, de loja em loja, com uma lista de pedidos na mão. A camioneta estacionada em algum ponto da cidade recebia todo o material. Após diversas idas e vindas, deram por fim a missão. Tomaram o carro e voltaram para Ponta Porã. Mas, ao atravessarem a fronteira, receberam ordem de prisão de dois policiais federais. Toda a mercadoria foi apreendida. Foram liberados em seguida. Assinaram um termo e foram avisados que todo o material seria depositado no quartel do Exército. Não ficaram presos, segundo os policiais, porque acreditaram na versão deles de que o material seria destinado às famílias de colegas em Ponta Grossa.
E nós ficamos sem o dinheiro e sem os presentes de Natal para as crianças.
Blog: Algum comentário sobre a campanha técnica de 1974, no Estado de Goiás?
R: O uso do helicóptero ficou consagrado obviamente como altamente produtivo. Nesse ano trabalhamos com empresas particulares (Votec e Aerólio). Nos anos posteriores a Aeronáutica foi convocada para nos dar apoio. Esse fato trouxe alguns problemas, pequenos, mas que incomodaram. No afã de ganhar horas de voo, até coronéis aviadores pilotavam as aeronaves postas à nossa disposição. Traduzindo: o comandante era coronel e o navegador era o sargento, que, com a foto aérea na mão, era quem fazia o plano de voo e dava as ordens – desça, suba, pare, menos, mais, amanhã às 6h da manhã, etc...O constrangimento era inevitável para alguns. E isso ficou explicitado em comentários públicos feitos por um ou outro comandante.
No final do ano de 1974 e início de 1975 a gasolina teve aumento de até 300%. Em menos de um mês. Era o cartel da OPEP iniciando seu comando no mercado de combustíveis fósseis.
Blog: Em qual período o Sr serviu na 1ª DL e quem foi Chefe da OM?
R: Servi de 1976 a julho/1981. Foram chefes o Cel Ayrton De Oliveira Cruz (1974 a 1977), Cel Newton Câmara (77 a 80) e Cel Henrique Araújo (80 a 83).
Blog: Quais as principais funções exercidas na 1ª DL?
R: Trabalhei no Cálculo e, também, na Restituição Fotogramétrica, operando equipamento Wild B8.
Blog: O Sr participou de alguma Campanha da 1ª DL?
R: Participei da Campanha técnica na região amazônica, em 1978, com sede da seção em Manaus, mais exatamente na Rua 7 de Setembro, 1801, onde ficaria sediada, por algum tempo, a 4ª DL, atual 4° CGEO.
Blog: O que o Sr tem a dizer sobre esta campanha?
R: A campanha técnica em Manaus foi curta para mim. Na verdade minha missão, dada pelo Cel Henrique, era assessorar o chefe na montagem da sessão e início dos trabalhos de reconhecimento e medição.
Reconhecidos os pontos na floresta, era feita uma clareira na mata, o helicóptero descia e deixava o operador do rastreador de satélite, alimentos, barraca, e demais equipamentos necessários. Dez dias depois (ou mais) o operador era trazido de volta ou levado para outro ponto. Os equipamentos, Marconi, utilizavam satélites, ainda poucos, e as medições das passagens eram gravadas em fitas DAT, semelhantes às fitas K7 de áudio, que eram enviadas para o Rio de Janeiro para interpretação dos dados.
Nesse tempo a zona franca de Manaus era muito procurada. Ainda valia a pena comprar alguma muamba. Mas a cota era pequena, 150 dólares. Por outro lado, a alfândega era lotada por “terroristas do governo”… mancomunados com o SNI! Testemunhei muitas cenas de autoritarismo, injustiças, arbitrariedades. Explico: diariamente tínhamos que acessar a pista do aeroporto para embarcar em aeronave, seja helicóptero, seja avião de asa alta. E a cada entrada e saída do aeroporto, mesmo fardados, a serviço, tínhamos que passar pela alfândega, mostrando todos os equipamentos e pertences pessoais. Enquanto aguardávamos para sermos atendidos, ficávamos observando o trabalho dos fiscais. Ficamos conhecendo a maioria deles, como cada um trabalhava. Havia uma fiscal, senhora magra, alta, elegante, muito exigente, detalhista. Se fosse sorte sua (ou azar) cair nas mãos dela, podia se preparar para ter tudo em ordem.
Ocorre que dois companheiros, carteanos, estavam no aeroporto de volta à sua sede no sul do país.
- Se eu colocar todo o meu fardamento por cima de tudo, na mala, o fiscal, ao ver que sou militar, vai maneirar, facilitar, dizia o primeiro.
- Cara, acho que não, dizia o outro. Esse pessoal tem é raiva da gente. Eu vou esconder minha farda, bem por baixo das outras roupas.
Já no aeroporto, o que vimos foram diversas malas abertas, fardas, quepe, coturno, estrelas, nebulosas, uma imensa coleção verde-oliva espalhada até pelo chão, e um militar cabisbaixo, desolado, arrasado. O tiro saiu pela culatra. Por pouco não perde o avião. Teve que se apoiar em um balcão afastado, e declarar tudo o que não constava da única relação que apresentara. Caíra nas mãos da megera, alta, elegante e caxias.
Blog: E na 3ª DL, quando o Sr serviu por lá e quem chefiou a Unidade?
R: Servi de julho/1981 a janeiro/1986. Meus chefes foram o Cel Norival Luiz dos Santos Jr. (até 1984), Ten Cel João Venâncio de Melo Neto (1984 a 1986) e o Cel Marcis Gualberto Mendonça, com quem trabalhei por duas semanas, aproximadamente, pois eu havia pedido passagem para a reserva remunerada.
Blog: Quais as principais atividades que o Sr exerceu na 3ª DL?
R: Eu fui designado, inicialmente, para a Restituição, onde fiquei menos de um mês. Em seguida passei algum tempo na SDA. No Almoxarifado, passei meus últimos anos de vida militar, até o ano de 1986, quando pedi passagem para a reserva remunerada.
Blog: O Sr tem algum ‘causo’ de campanha para nos contar?
R: Sim, vou relatar dois.
1º causo: Cananéia e Ilha do Abrigo
Cananéia é um paraíso ambiental. Uma colônia de pescadores, altamente produtiva, ocupava, naquela época, a orla de Cananeia. A fábrica de bacalhau era alimentada com o produto daqueles pescadores.
A cidade, melhor dizendo, a vila, parecia realmente o que era: uma colônia de pescadores. Os manguezais se multiplicavam, formando verdadeiros labirintos, com seus canais escuros, convidando os incautos a se perderem em seus meandros e aos seus encantos.
A ligação da pequena baía com o mar era estreita e rasa. Ali as ondas quebravam, produzindo, conforme o vento, violência e perigos à navegação.
Já em mar alto, a cerca de 6,6 Km da costa, encontrava-se a Ilha do Bom Abrigo, elevação rochosa que se projetava no oceano, tendo em seu cume um farol, administrado pela Marinha do Brasil. No seu pico tínhamos um ponto de apoio a ser determinado. A missão me foi dada pelo chefe e tive que aguardar até que a ressaca diminuísse sua violência. A semana tinha sido de muito vento e chuva forte. E o mar não estava pra brincadeira.
Relutante o barqueiro aceitou o trabalho de levar nossa equipe até a Ilha do Abrigo. Ele sugeriu esperar que a ressaca ficasse menos violenta. Mas tínhamos pressa. A chuva retardara nossa medição e urgia mudar a sessão para outra região.
Foi assim que partimos. Nas águas da baía, o barco balançava tranquilo, ao sabor de pequenas ondas. A maioria da equipe vestiu sungas e deitou-se na coberta, para tomar sol, que andara sumido por quase um mês. Não tínhamos a menor ideia do que estava por vir.
À medida que nos aproximávamos da arrebentação, onde a baía se estreita na ligação com o mar, as ondas começaram a ficar mais e mais violentas. Marinheiros de primeira viagem, descemos todos, encharcados, preocupados, assustados. O barqueiro alertou para nos agarrarmos em tudo que estivesse preso no barco, bancos, travessas, etc. Porque havia grande risco de naufrágio. O canal de navegação estava muito raso, e o barco poderia bater com a quilha no fundo, com a possibilidade de destruição da embarcação. A certa altura o prático, que estava na coberta agarrado ao mastro, gritou para o comandante algo para nós ininteligível, por causa do barulho das ondas e do vento. Houve um instante, para mim bastante longo, em que não ouvimos o motor. O barco começou fazer a volta, girando 180 graus. Uma onda enorme nos pegou por trás, ergueu o barco, e, em seguida, despencamos lá do alto. A sensação do surfista deve ser essa. Deslizamos suave e velozmente para baixo. Já alertados pelo barqueiro, o medo era que batêssemos no fundo, o que destruiria a embarcação. Porém, chegamos à praia, sãos e salvos. Depois soubemos que os pescadores que vinham atrás de nós, naufragaram ao terem o barco destruído e com perda de duas vidas.
Na semana seguinte, mar calmo, sereno, cumprimos a missão. Um marinheiro nos recebeu na ilha, e consegui determinar o ponto. Mesmo assim, não houve quem, desta feita, se aventurasse a deitar-se na coberta do barco. Gato escaldado...
2º causo: Ilha do Mel e Guaraqueçaba.
Guaraqueçaba, permanece até hoje uma pequena colônia de pescadores. Quando lá estivemos, em 1965, sua principal pesca era a sardinha, que alimentava as indústrias de conservas da região.
O acesso por terra era ruim e levava cerca de 4 horas ou mais para vencer os 140 Km de estrada. Por isso a opção pelo barco. Foi contratado um barco de pequeno porte, equipado com motor de centro de 10 HP (informação essa dada pelo barqueiro), a diesel.
Missão: medir um lado poligonal, a telulômetro, de cerca de 25 a 30Km. A medição foi feita, mas não foi aproveitada. Por ser rasante à água da baía, o sinal do telurômetro era instável, não permitindo uma definição na medida. Terminado o trabalho, iniciamos o retorno a Paranaguá por volta das 2 horas da tarde.
A baía tem seu leito coberto por pedras de diversos tamanhos. A navegação deve ser feita com orientação de um prático que conhece os canais. A certa altura o motor parou de funcionar. A partir daí nos revezávamos, no porão do barco, para fazê-lo funcionar. A gente escorregava no óleo derramado no assoalho do barco, e o contragolpe do motor provocou alguns pequenos acidentes, machucando mãos e braços.
A certa altura o barco bateu em alguma pedra e quebrou o leme. A noite veio e com ela o nevoeiro, denso e frio. Da proa mal se via popa. Como desgraça nunca vem sozinha, não tínhamos rádio nem iluminação. Inexperiência e irresponsabilidade. Foram horas e horas navegando às escuras, sem a menor noção de onde estávamos. As conversas silenciaram. Era como se o silêncio no barco nos ajudasse a ouvir algum som, algum aviso, algum alerta que nos orientasse. Uma coisa eu garanto: estávamos todos assustados. Creio que a ideia geral era que o nosso fim estava próximo. A música monótona das pequenas ondas batendo no barco alimentava o clima de mistério e terror. Lá pela madrugada o barqueiro nos alertou que a massa escura e volumosa que aparecia à nossa esquerda, poderia ser a Ilha do Mel. Isso nos trouxe bastante alívio, pois era sinal de que estávamos na direção certa. O nevoeiro havia se dissipado. Mas noite era de breu.
A sorte nos levou para o canal que dava acesso ao porto de Paranaguá. Mais uma vez o barqueiro nos chamou a atenção para o fato de que os navios não nos poderiam enxergar, e que, caso passássemos muito próximos de algum, haveria o risco de virarmos, devido à onda criada pelo navio.
Logo depois passou por nós um navio, mas a uma distância razoável que não ofereceu maior perigo.
Ao clarear do dia, nosso pequeno barco encostou na areia da praia da Ilha do Mel.
O sol já ia alto, cerca de 9 horas da manhã, quando chegou o Sgt Messa com o socorro.
P: Em qual cidade o Sr reside atualmente?
R: Em Jaboatão dos Guararapes – PE, no Bairro de Candeias.
P: Muito obrigado pela entrevista e fique à vontade para as considerações finais.
- Certa feita, em Santa Catarina, os saudosos companheiros Freitas, Gustavo e eu nos dirigíamos para um ponto onde seria feito um pequeno desmatamento, a foice e machado, para abrir visadas para uma interseção à ré. Paramos o jipe na beira na estradinha, para dar passagem a um colono em sua carroça.
Com seu sotaque característico, ele indagou: Os senhores estão trabalhando hoje?
A pergunta nos trouxe à memória que era feriado de 7 de setembro.
Por diversas vezes nos surpreendíamos trabalhando em domingos e feriados; atravessando banhados, abrindo picadas, voando em helicópteros sem a mínima condição de segurança, navegando em pequenos barcos, sem experiência nem recursos; sobrevoando a floresta amazônica, ou o cerrado goiano, em aeronaves desprovidas de qualquer tipo de comunicação; trabalhando em regiões sujeitos a picadas de barbeiros, mosquitos da febre amarela ou cobras venenosas.
- No oeste paranaense, o Sgt Geser e sua equipe foram perseguidos por uma vara de caititus (ou queixadas). Tiveram que subir em árvores para escapar das presas dos animais.
- Em Cerro Azul, próximo à antiga estrada da Ribeira, Paraná, a mata era povoada por onças, às vezes caçadas pelos moradores porque atacavam as criações. E nós por ali andávamos, tripé e teodolito ao ombro, por dentro da mata, para determinar algum ponto de apoio.
- Na serra do Mar, próximo à BR-116, ao sul de Registro, as subidas aos morros levavam em média 4 horas. Saíamos do acampamento cerca de 4 horas da madrugada, para iniciar a subida no morro lá pelas 6 horas da manhã. Era de comemorar quando a medição era realizada. Porque tínhamos que contar com tempo limpo, na hora da medição. Você iniciava a subida com sol. Quatro horas depois, ao chegar ao topo, havia neblina, chuva, ou nevoeiro. Ou ainda: ter sol no alto da montanha, e nevoeiro na região onde ficavam os pontos de apoio, impedindo qualquer visibilidade. Isso obrigava a reocupação do morro.
- Certa feita, o cabo Sato era o último da fila indiana dentro da mata. Sgt Cláudio Folda e eu íamos à frente da equipe. Mata fechada, na região da Ribeira, São Paulo. O grito do Sato nos fez parar. Aquele pedaço de pau atravessado na trilha, cinzento, grosso, e que todos tinham evitado pisar em cima, era uma urutu cruzeiro, muito venenosa e que só acordou quando da passagem do cabo Sato. Foi embora. Ainda bem.
Nosso pessoal da Cartografia Militar, verdadeiros patriotas, gente valorosa, é pouco conhecido. Não imaginam, nem de longe, os companheiros de outras armas e serviços, que, no campo, nosso pessoal não tem feriado, não tem horário de expediente, não escolhe terreno para trabalhar. E não são exercícios de campo, esporádicos, programados. São nossa rotina profissional.
Não é preciso ir longe. Você encontra o verdadeiro espírito de brasilidade, fácil, fácil, em nossos topógrafos e cartógrafos. Deixo aqui, para quem quiser ouvir ou ler, meu testemunho, minha homenagem a todos os companheiros do Serviço Geográfico do Exército. Aqui se encontra o espírito de camaradagem. Espírito de família. Democracia e trabalho. Onde o chefe, o coronel ou o capitão come a mesma comida, ocupa a mesma barraca que o soldado ou o sargento. Um exemplo a ser divulgado para todos os brasileiros: militares e civis, esquerdos e direitos, crianças na escola e universitários.
Minha homenagem a todos os carteanos, em especial aos companheiros veteranos.




