DARCY E A FOICE
Já anoitecia. Trabalhara o dia todo no Multiplex, sob a
supervisão do Sgt Modesto, expert naquele equipamento. Ele fora transferido
para a Segunda DL mas deixara a família no Rio. Vez que outra viajava ao Rio no
seu carrão importado, um V8, quatro portas, para rever mulher e filhos. Gostava
de contar vantagens quando se tratava de mulheres.
Assim contou, que, na última viagem de volta, já nos
arredores de Curitiba, parou o carro com o coração em sobressalto, para dar
carona a uma garota nova, bonita, que lhe acenava na beira da estrada. Abriu a
porta do carona, e chamou a vítima. Qual não foi a surpresa quando a garota fez
sinal para a mata, de onde saíram crianças, a mãe e o pai. Agora não havia como
escapar. Pra desespero seu, ao seu lado sentaram-se o pai e a mãe. As crianças
no banco traseiro. Nota: o banco dianteiro era inteiriço, sentavam-se dois
passageiros além do motorista. A garota? Bem, essa não embarcou. Servira apenas
de isca.
Mas, como disse acima, já anoitecia. Deixemos o sgt Modesto
com seu carrão e vamos falar de foice.
Terminara o expediente e agora era cumprir as tarefas de
adjunto, pois estava de serviço. Era hora do jantar, e, no caminho para o
rancho, dei de cara com o colega Darcy (não sei se com y ou com i). Fardado com
o 7º uniforme, esbaforido, falava e gesticulava. Como não estava entendendo
nada do que falava, pedi para entrarmos e lá me contar sua história.
Sentamo-nos. Darcy era magro e alto. Pelo menos para mim,
que sou baixo. Burocrata, polaco, trabalhava na
Secretaria, juntamente com o Sgt Tácito. Estacionara um pouco adiante sua Rural
Willys verde, cuja porta deixara aberta.
- Vai, conte agora. O que aconteceu? Parece que viu
fantasma!!!!
- Você não vai acreditar.
Não éramos exatamente amigos, apenas bons companheiros de
caserna. Mas nessas horas a gente faz amizade com a rapidez do raio. Não vou
dizer que estava chorando. Mas a aparência dele era de algo parecido.
- Sim, insisti. Desata, cara.
- Quando saí, há pouco, para ir pra casa, na minha rural, lá
em cima, na altura do cemitério, na Balduino Taques, vi no ponto de ônibus uma
amiga, uma conhecida.
- Amiga, conhecida? - indaguei com ironia.
- É, você sabe como é, né mesmo? Parei. Ainda era cedo,
daria tempo para dar uma escapada e chegaria antes das oito em casa.
- Você é doido, cara. E deu certo?
- Claro! Bem, não deu certo. Ela é bem coroa. Mas é um
avião. Separada. E o filho que mora com ela, está sempre viajando a trabalho.
- Aí você foi pra casa dela?
- Fomos. Mas o filho estava em casa e tive que debandar.
Tomei o caminho de volta. Cheguei em casa, estacionei a rural e fui para a
porta de casa, que se abriu repentinamente na minha frente. No meio da porta,
você não imagina o que eu vi...
- Não imagino mesmo. Tua esposa? A empregada?
- Que empregada, homem. Minha mulher.
- Você não entra mais aqui, seu desgraçado, cachorro,
maldito!
- Era Vespasiana, minha mulher, brandindo uma foice,
disposta a separar, definitivamente, minhas duas orelhas. Eu não a vira, claro, quando
parei para pegar a amiga. O fato é que um pouco adiante estava minha mulher esperando
o ônibus. Ela me viu. Veja assim: deixei minha mulher no ponto do ônibus e
parei pra pegar um biscate.
Sargento Darcy, boa gente, alto e magro, dormiu no quartel.
Se não me falha a memória, uma semana depois foi aceito em casa. Ainda bem.
Nunca me contou o preço que teve que pagar. Creio que não foi barato.
O Sgt Tácito...ah, essa eu conto depois.
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