BRUXISMO
Autor: JBNETO
O inverno de 1965 não estava dos mais frios. Nossa missão: reambulação
da região de Cândido de Abreu e arredores em fotos na escala de 1:60.000.
A BR-376, no Paraná, estava ainda em construção. A cidade de
Ortigueira ficava na margem direita da rodovia, sentido norte. Atravessamos a
estrada que, na época, sem pavimentação, era puro lamaçal. Assim, atolando e
desatolando, o barro vermelho cobrindo os jipes, sujando os parabrisas, e
pintando de lama os viventes neles embarcados.
As camas estavam montadas. Eram
camas toscas, de campanha, uma armação de madeira, uma lona esticada. O frio
era suportável. Dispúnhamos de cobertores e, além disso, as lides no campo
deixaram nossas carcaças mais resistentes ao gelo paranaense.
Semi-mortos, cansados, nos deitamos.
O lampião Coleman a querosene (hoje a gás propano), iluminou nossa primeira e
última refeição do dia: macarrão com carne moída e café com bolacha.
Estivéramos acampados em Cândido de Abreu, por cerca de 20 dias,
sem poder trabalhar por causa da chuva ininterrupta. A rotina era pescar
durante o dia e, à noite, matar ratos. A casa de madeira, onde
passáramos esses dias, possuía um sótão, que servia de depósito para milho na
época da safra e, no momento, servia de morada para inúmeras e enormes ratazanas. A escada de madeira que dava acesso
ao sótão, era quase vertical e muito estreita.
À noite, a “rataiada” se divertia muito. Eram gritos, brigas, e,
às vezes rolava uma ratazana escada abaixo. Durma com um barulho desses... Daí
surgiu a ideia. Armamos uma ratoeira no alto da escada, isca de milho e,
silenciosamente, nos deitamos para dormir. Quando um rato ficava preso na
ratoeira, caía escada abaixo com a ratoeira presa ao pescoço e encontrava lá
embaixo, no pé da escada, nós moradores, cada qual com um porrete na mão.
Não sei ao certo que horas eram
da madrugada. Os soldados se acomodaram em um quarto e eu com o compadre, sgt
Messa, ocupamos um outro quarto. Acordei com o companheiro me sacudindo,
preocupado:
- Compadre, acorde. Tem um rato
aqui dentro. E parece que está roendo alguma coisa. Acendemos uma lanterna.
Procura que procura, nada encontrando, voltamos a dormir.
- Você está com síndrome de
rato. Ainda está sonhando com os ratos de Cândido de Abreu.
Contestou, relutou, mas
voltamos a dormir.
O dia amanheceu diferente. A
chuva cessara. O céu nublado estava mais claro. Prenunciava tempo bom.
Foi durante o café que ele me
alertou:
- Compadre, tenho uma novidade.
Lembra do rato dessa noite? Eu não voltei a dormir, preocupado com nosso
material. Fiquei na escuta. Foi aí que descobri que o rato estava na sua cama.
Mesmo no escuro me aproximei e o som do roedor era cada vez mais nítido.
- E daí? - perguntei, curioso.
- Acendi a lanterna. O rato era
você. Você range os dentes. Igual ao ranger do roedor.
Ainda bem que teu compadre Messa teve a "luz" (sem trocadilho nenhum) de acender a lanterna antes de dar uma porretada no "rato"... senão, não teríamos esta crônica! kkkkkkkkk
ResponderExcluirAinda bem. Então teríamos outra crônica, quiçá escrita por ele...
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